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Não é porque você ocupa um cargo de chefia que não pode ter dúvidas. Se precisar, peça ajuda
Para ser um bom chefe, a lista de habilidades e competências
desejáveis, pelo menos na teoria, é infinita: boa comunicação, visão de
futuro, organização, senso de justiça, capacidade de equilibrar a
carreira com a qualidade de vida, saber ouvir e motivar a equipe,
obedecer prazos, atingir metas, ser criativo... Sob o ponto de vista
prático, no entanto, encontrar um chefe com esse perfil é praticamente
impossível.
"Eu mesma quando leciono a disciplina sobre liderança e apresento o
perfil desejado pelo mercado comento com os meus alunos: se alguém já
encontrou ou conhece esse ser, teve a sorte de ficar diante de um
fenômeno", conta Vanderli Frare, coordenadora do curso de Gestão
Estratégica de Pessoas do Ibmec-DF.
De acordo com especialistas em carreira, gestão e recursos humanos, um
líder capacitado, hoje em dia, tem seus defeitos. E isso pode ser
altamente produtivo para a equipe e a para empresa. Veja a seguir
algumas falhas altamente perdoáveis e suas razões.
Reconhecer um erro
Alguns líderes ainda alimentam a crença de que um engano percebido por
seu subordinado o desqualifica como profissional. Para Maria de Lurdes
Zamora Damião, psicopedagoga da Fundação Escola de Comércio Álvares
Penteado (Fecap), de São Paulo, enfraquecer esse mito "despe qualquer
pessoa da fantasia de super-herói e a transforma em ser humano".
A humildade é uma característica fundamental da liderança. "Admitir que
errou permite retomar o problema ou reconhecer uma outra solução, sem
perder tempo com justificativas", afirma Joyce Ajuz Coelho, professora
doutora de Gestão de Pessoas na ESPM-RJ. As equipes admiram líderes
fortes, mas se identificam mais com aqueles que têm a coragem de se
mostrar imperfeitos e dispostos a aprender com seus erros. A
vulnerabilidade acaba gerando empatia.
Ter consciência de que precisa se aprimorar
Segundo Cristina Camargo, docente da BSP (Business School São Paulo), o
líder eficaz é aquele que busca o autoconhecimento de forma contínua e,
com isso, consegue ter uma percepção clara de seu perfil. "Ele sabe
identificar quais competências são naturalmente mais desenvolvidas e
quais precisa aprimorar. Dessa forma, pode encontrar nos vários perfis
de sua equipe uma complementação ideal, também aprendendo com ela", diz a
especialista.
Agir com emoção em alguns casos
O chefe que consegue associar emoção e razão pode elaborar ações mais
equilibradas, empáticas e confiáveis. Em algumas circunstâncias, no
entanto, é difícil administrar a dose. "Na hora de muita cobrança e
pressão não é difícil que o chefe se estresse com a equipe ou com algum
membro específico", declara Vanderli Frare, do Ibmec-DF.
Depois do ocorrido, mesmo que o líder esteja certo, é bom que explique
os motivos de sua atitude para o funcionário. E, se for o caso, peça
desculpas. É o momento, também, de dar um "feedback" construtivo sobre o
que esperava como resposta daquela pessoa ou equipe. "Todo mundo
entenderá e relevará o tom alterado", diz a especialista.
Pedir ajuda
Segundo a consultora de recursos humanos Daniela do Lago, até há pouco
tempo era considerado competente o chefe que sabia fazer tudo em seu
departamento. "Essa premissa mudou, felizmente. Hoje o líder precisa
saber perguntar e escolher talentos certos para compor seu time. Então,
nada mais natural que a pessoa desconheça como se faz determinada tarefa
e que para isso peça ajuda", declara Daniela
A função principal de quem ocupa a liderança é dar suporte e
assistência às necessidades da equipe, para atingir metas, o que, via de
regra, exige lidar com conflitos e motivar os funcionários. "O
verdadeiro líder é o que desenvolve pessoas e forma novos líderes. Ele
se cerca de colaboradores inteligentes e que complementam as suas
habilidades. Sendo assim, no trabalho em conjunto, a ajuda faz parte do
processo", afirma Joyce Ajuz Coelho, da ESPM-RJ.
Admitir que sente inveja de algum iniciante talentoso
A inveja é uma emoção aprendida, incentivada pela comparação e pela
competição. E senti-la é muito comum, principalmente no ambiente
corporativo. "Os chefes que reconhecem e administram suas emoções buscam
alternativas para neutralizar os efeitos das nocivas. Afinal, o
problema não é a inveja, mas aquilo que o indivíduo faz de negativo
quando a sente", afirma Maria de Lurdes Damião, professora da Fecap.
No trabalho, a inveja costuma vir acompanha de insegurança e medo de
ser substituído por alguém mais talentoso. Para a consultora de RH
Daniela do Lago, a melhor maneira de combater esse temor é investir no
desenvolvimento profissional e manter suas competências alinhadas com as
necessidades do mercado. "Transforme a inveja em admiração e busque se
aprimorar", diz. Para Cristina Camargo, da BSP, esse é o momento de
rever a trajetória e oferecer às pessoas aquilo que só a experiência
traz: sabedoria.
De vez em quando desanimar ou reclamar
Desde que essas atitudes sejam rapidamente substituídas por um momento
de reflexão sobre a melhor maneira de superar o desafio apresentado, não
há mal algum em reclamar ou desanimar. A transparência, a
confiabilidade e a justiça são algumas das características dos melhores
chefes. "Sendo assim, é importante que manifestem seus sentimentos, sem,
entretanto, deixar de apontar caminhos, pois inspirar é papel da
liderança", conta Joyce Coelho.
Um dos maiores benefícios que o superior pode obter por ter conseguido
criar uma equipe coesa e madura é a possibilidade de compartilhar não
apenas os momentos de sucesso, mas suas preocupações. Abrir o diálogo
para conversas cruciais reforça o elo da comunicação do time, para
enfrentar os desafios profissionais. "É natural reclamar, porém,
transformar reclamações em perguntas poderosas faz a diferença entre ser
um líder otimista, que busca soluções, e um chefe que apenas usa o
pessimismo como forma de desabafo", fala Cristina Camargo.
Compreender que problemas pessoais interferem, sim, no trabalho
De acordo com a consultora de RH Daniela do Lago, analisar o lado
pessoal dos funcionários faz do líder alguém mais humano, presente e
mais próximo de seus subordinados. E isso também vale para o chefe, que
não precisa se torturar, caso não tenha se saído bem em uma reunião no
dia em que teve um problema sério em casa.
"Não somos seres fragmentados, portanto, não se deve esperar que os
indivíduos se dividam em seres profissionais e pessoais", diz Cristina
Camargo. "O líder que entende que seus colaboradores são pessoas que não
conseguem simplesmente esquecer seus problemas em casa quando vão para o
trabalho também desenvolve a habilidade de se mostrar mais humano e
oferecer a compreensão necessária para ajudar seu time em busca de
soluções".