CARLA GUIMARÃES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM GOIÂNIA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM GOIÂNIA
O "poeta das ruas" de São Paulo, Raimundo Sobrinho, 74, passou 20 anos
no canteiro central da avenida Pedroso Morais, zona oeste. Em dezembro
de 2005, a Folha contou sua história.
Há um ano, ele foi encontrado pelo irmão --graças a ajuda de uma
publicitária que se sensibilizou com sua história-- e levado para morar
em Goiânia com a família. Entre lacunas e imprecisões, o poeta conta sua
trajetória.
*
Os documentos dizem Raimundo Arruda Sobrinho, nascido em 1º de agosto de
1938, na fazenda Sol Ferino, em Porto do Sítio [atual Goiatins, norte
do TO].
Meu pai era vaqueiro. Nascido e criado na zona rural, fui levado aos 16
anos para a cidade, me entregaram para o prefeito, para educar.
De agosto de 1954 a janeiro de 1961 morei com o prefeito. Ia no período das aulas e passava férias em casa.
Em 1960 fui reprovado na segunda série ginasial, me desgostei e fui para
São Paulo --cheguei em 10 de janeiro de 1961. Um conhecido me arranjou a
passagem.
Fui procurá-lo [o conhecido] na Vila Madalena, num cortiço de madeira. Amanheceu e já fui trabalhar de jardineiro.
Em 1974 houve um desgosto qualquer, abandonei o jardim e fui vender
livro velho pelas calçadas. Passava semana sem vender um. Não ganhei nem
mais para alimentação.
Dois anos depois estive internado na psiquiatria do Hospital das
Clínicas. Muita gente diz: "Tu não sabe o que é um hospital
psiquiátrico".
Memórias do canteiro central
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Em
dezembro de 2005, no canteiro central da avenida Pedroso de Morais,
Raimundo Sobrinho, hoje com 74 anos, escreve em seus cadernos poemas
abstratos que dava para as pessoas
Tive 14 endereços até 1978. Morei num quarto e cozinha sem luxo, mas asseado, onde ficou tudo que é meu.
Quando me fizeram abandonar a casa em que eu morava, em 29 de abril de 1978, comecei a dormir pelas ruas.
Ali me reconheci vítima de violação de direitos humanos. Procurei consulados, ninguém prestou atenção.
Sem dinheiro para nada, decidi em 1980 tentar ir para a Argentina. Fui
até onde disseram que era Uruguaiana (RS). Cheguei em julho de 1980.
Alegaram falta de documento...
Em outubro tentei o Paraguai. Cheguei num dia, no outro fui preso.
Passei três dias na cadeia. O cônsul brasileiro me retirou. Deixaram-me
onde disseram ser Foz do Iguaçu. Ali fui servente de pedreiro.
No Uruguai. entrei mas não pude ficar. As autoridades e eu nos desentendemos.
Voltei a São Paulo em 1983. Estive no Morumbi, Jardim Paulista,
Ibirapuera. Em 1985 fui para a av. Amarílis, onde vivi até junho de
1989.
Numa madrugada chegou um carro cheio de rapazes, acordaram-me e
ameaçaram-me. Na rua das Amoreiras fui apedrejado. Não mataram porque
não quiseram.
Ficava num local enquanto podia. Havia demonstração de desapreço, me afastava.
Ali [canteiro central da Pedroso de Morais] cheguei era 27 de outubro de
1993. Vivia debaixo de plástico, noite e dia cercado por assaltantes.
Em 1986, em novembro, nasceu o atual diário --diário de uma vítima de violação de direitos humanos.
As mínipáginas não me lembro bem, mas nasceram nesse período. Tudo que
escrevo assino, dato e localizo. O público dava os papéis.
A produção é reduzida. Se a pessoa chegasse e eu tivesse minipágina,
dava. Se não tivesse, prometia, fazia e guardava à espera da pessoa.
Além delas tem os caderninhos. A capa é feita de papel de embrulho. Fiz centenas.
O barulho dos automóveis não alterava para escrever, só a má iluminação.
Qualquer hora escrevia, até debaixo de chuva. Arranjava um plástico,
sentava numa lata de 18 litros e continuava trabalhando.
Tem coisas nos meus escritos que considero de valor científico. Chegou
um ponto que deixei de assinar meu nome, para assinar o pseudônimo "O
Condicionado". Não me lembro a partir de quando. Comecei a ouvir "o
condicionado". Descobri que era eu.
Em 1986 veio um pessoal que disse ser do programa Flávio Cavalcanti
[então transmitido pelo SBT], me entrevistaram e perguntaram se poderia
ir ao programa. Trouxeram a mulher do Antônio Souza Porto [ex-prefeito
de Goiatins] e o filho dela.
Do programa me levaram para um hotel. No outro dia me arrastaram até
Goiânia. Eu não queria vir. Passei um mês e voltei para o mesmo local
que vivia, no Morumbi.
ADAPTAÇÃO
Desta vez disseram que foi com essa instituição dos celulares que me
localizaram. Envolveu uma jovem que começou a frequentar o local que eu
vivia [a publicitária Shalla Monteiro].
Disseram que ela se comunicou com o Francisco [Arruda, irmão dele]. Ele
foi lá duas, três ou quatro vezes, e terminou arrastando-me para cá. Eu
não queria.
Não teve problema de adaptação. Preferia continuar lá, porque aqui estou dando trabalho, ocupo espaço, consumo, como, bebo.
Aqui a ordem foi que não preciso trabalhar. O que posso ajudar, faço. Limpar, varrer embaixo dessas mangueiras.
Amanheceu o dia faço o que é possível, depois pego os papéis. O
fundamental é o diário. As minipáginas faço o que posso. Aqui não tem
muita necessidade delas. Lá precisava para dar a quem me desse alguma
coisa, tenho a necessidade moral de retribuir com qualquer coisinha.
Não me considero escritor, mas uma pessoa que sabe gastar papel. Não
ganhei um centavo à custa do que escrevi. Tentei. O mundo editorial não
pôde pagar coisa nenhuma. Publicar não quero.
Não sei coisa nenhuma o que fazer da vida. Escrever, enquanto eu puder, vou escrever.
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