No abrigo para imigrantes em Brasileia, município de 20 mil habitantes
perto da fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru, o coordenador da
secretaria de Direitos Humanos do Acre, Damião Borges, tirava dúvidas de
um grupo de haitianos quando avistou uma mulher que caminhava com
dificuldade.
Com as pernas inchadas e uma barriga de oito meses de gravidez, a jovem
haitiana tinha acabado de atravessar a fronteira a pé, por um longo
trecho de floresta amazônica. Na rota, traçada por agentes que
transportam imigrantes sem vistos, buscava evitar que policiais a
apanhassem.
Damião lhe assegurou que médicos da cidade a tratariam com atenção
especial. Três semanas depois, quando a jovem deu à luz uma bebê
saudável, ele sugeriu batizá-la de Vitória. A mãe aceitou. "Vitória
porque aquele parto foi uma vitória da vida", diz Damião à BBC Brasil.
Ao narrar a história, ocorrida em 2011, ele se recorda das dificuldades
enfrentadas pelos primeiros haitianos a cruzar a fronteira. Até então
um funcionário da secretaria estadual de Esportes em Brasileia,
município onde nasceu há 53 anos, Damião tinha uma rotina pacata só
alterada pelo agito dos campeonatos estudantis que organizava
anualmente.
Mas, no fim de 2010, quando centenas de haitianos passaram a chegar
após o terremoto que devastou o país caribenho naquele ano, o governo
estadual o incumbiu de coordenar a assistência humanitária aos
imigrantes.
Sozinho, ele agia em várias frentes: recebia e cadastrava os
estrangeiros, orientava-os sobre os trâmites do visto, recolhia seus
documentos, comprava remédios, organizava a distribuição de comida e
gerenciava o abrigo onde dormiam. "Virei cem em um."
Para se comunicar com o grupo, passou a contar com alguns imigrantes
que, além de creole, também falavam espanhol. O trabalho que ele pensava
ser temporário, porém, jamais foi interrompido: desde então, o fluxo de
imigrantes em Brasileia só cresceu, assim como suas responsabilidades.
Sem fim de semana
Damião hoje trabalha de segunda a segunda. "Faz dois anos e meio que não sei o que é sábado, domingo, Semana Santa, nada".
Em dias calmos, inicia as atividades às 7h30 e as encerra por volta das
19h. Quando as tarefas se acumulam, chega ao abrigo por volta das 6h e
só o deixa tarde da noite. Não raro, é despertado de madrugada para
lidar com emergências.
Pai de um filho de 19 anos, separou-se da esposa alguns anos antes da
chegada dos imigrantes. Com o ritmo de trabalho atual, diz que procurar
uma namorada se tornou "praticamente impossível" e que, com frequência,
passa até cinco dias sem visitar a mãe de 80 anos, que mora em frente à
sua casa.
No abrigo, um antigo ginásio esportivo, é abordado o tempo todo por
imigrantes, que pedem soluções aos mais diversos problemas - o visto que
demora a sair, um bêbado que arranja confusão, a comida servida crua, a
falta de dinheiro para telefonar à família.
Encerra boa parte dos diálogos com a mesma frase: "Tenha paciência que você vai vencer."
Às vezes, irrita-se com a insistência de alguns, enrijece os ombros e os deixa falando sozinhos, rumo à pendência seguinte.
Risco de brigas e epidemias
Na semana em que a BBC Brasil permaneceu em Brasileia, no início do
mês, Damião coordenava uma reforma no abrigo para ampliá-lo e dotá-lo de
mais banheiros. O alojamento, com capacidade ideal para 200 pessoas,
chegou a abrigar quase 1,4 mil naqueles dias.
A superlotação, causada tanto pelo aumento no fluxo de imigrantes
quanto pela redução no ritmo da emissão de vistos pela Polícia Federal,
fez o governo do Acre decretar estado de emergência em Brasileia e na
cidade vizinha de Epitaciolândia.
Desde então, o governo federal se comprometeu a acelerar os vistos e a
cobrir os gastos com a assistência aos imigrantes. Damião torce para que
as medidas ponham fim a um dos momentos mais duros que já enfrentou.
Ele temia que as condições no abrigo resultassem em uma epidemia ou em
conflitos entre imigrantes de nacionalidades distintas. Diferentemente
das primeiras levas de estrangeiros a chegar a Brasileia, formadas
apenas por haitianos, as últimas incluem indivíduos de outros sete
países.
Com 74 integrantes, o grupo de senegaleses é o segundo mais numeroso no
abrigo. Damião notou que os africanos se negavam a se misturar aos
haitianos, que se amontoam à espera das três quentinhas diárias. Com
isso, ficavam sem comer.
Ele então separou a entrega de refeições aos dois grupos. A tensão se dissipou.
A comida - ou a falta dela - já provocara nervosismo em outro momento.
De setembro de 2012 a março de 2013, o governo estadual suspendeu as
refeições gratuitas por falta de verbas.
"Eu saía pedindo doações aos empresários e ia para o supermercado
comprar óleo e carvão", conta. Naqueles tempos, diz Damião, quem não
podia comprar comida fora do abrigo passou fome. Certo dia, ele soube
que, no desespero, alguns haitianos mataram um gato. "Assaram e comeram o
bicho."
Serviços de RH
Conforme notícias sobre o surto migratório na região se espalhavam,
Damião passou a ser contatado por empresas de todo o país. Após
contratações bem-sucedidas, algumas companhias passaram a deixar em suas
mãos a seleção de novos trabalhadores.
Dos cerca de 6,5 mil haitianos que entraram no país por Brasileia, o
governo estima que 4,3 mil deixaram a cidade já contratados, muitos em
triagens organizadas por Damião.
Às vezes, diz ele, imigrantes espalhados pelo país lhe telefonam para
reclamar dos descontos obrigatórios nos salários. Muitos contam com o
ordenado para pagar as dívidas que fizeram para migrar, manter-se no
país e sustentar parentes no Haiti.
Mas a maioria dos imigrantes que o procura após deixar Brasileia tem
boas notícias a compartilhar. Em março de 2012, quando uma cheia deixou
sua casa submersa por seis dias, uma ligação o surpreendeu.
Haitianos que ele ajudara a empregar em Rondônia souberam da enchente
pela TV e fizeram uma vaquinha para cobrir seus prejuízos. "Agradeci
muito, mas pedi que mandassem o dinheiro para os parentes no Haiti, que
estavam mais necessitados do que eu."
O governo do Acre também expressou gratidão pelos serviços do
funcionário. Num evento em Brasileia no início do mês, o secretário de
Direitos Humanos do Estado, Nilson Mourão, chamou-o ao palco para uma
homenagem. Logo após pegar o microfone, Damião começou a chorar.
Recomposto, disse encarar o trabalho como uma missão divina. "Todos os
dias agradeço a Deus por ter me dado a oportunidade de ajudar essas
pessoas."
Ele, que se define como um católico não-praticante, diz que sua "vida
espiritual melhorou muito" nos últimos anos e que aprende muito com os
imigrantes. "Tenho momentos de raiva, às vezes falo forte, mas quem
diria que um dia eu ia mexer com oito culturas diferentes?"
Gravidez de risco
Em novembro de 2012, Damião outra vez se deparou com uma grávida que
precisava de cuidados especiais. A haitiana viajava sozinha e não tinha
ninguém para ajudá-la no abrigo. Damião acompanhou a gravidez e coletou
fraldas para o bebê entre vizinhos.
"Fiz de tudo para não faltar nada para eles", conta.
Meses depois, quando ela deu à luz um menino saudável no hospital de
Brasileia, Damião voltou a propor um nome para o batismo: Mateus. Dessa
vez, porém, a mulher rejeitou a sugestão.
Damião conta que, rodeada por 20 haitianos que a visitavam após o
parto, a mãe justificou a escolha: "Ela disse: 'Mateus, não! Ele vai se
chamar Damião, porque você foi como um pai para nós'."
Surpresos, os haitianos aplaudiram a decisão, e Damião, outra vez,
chorou. O pequeno Damião Oriel vive há cinco meses com a mãe em Porto
Velho.