O Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas), em Patos de Minas
(393 km de Belo Horizonte), cancelou nesta sexta-feira (3) a matrícula
de quatro estudantes do curso de medicina, após receber relatório da
Polícia Civil de Minas Gerais apontando fraude no último vestibular da
instituição.
De acordo com as investigações policiais, os estudantes Danilo Barbosa
Resende, 18, de Porangatu (GO), Marcos Lázaro Donato Barbosa, 23, de
Guanambi (BA), Eduardo Bodanesi Fontana, 33, de Lajes (SC), e Artur
Queiróz de Oliveira, 28, de Natal (RN), pagaram entre R$ 20 mil e R$ 50
mil para que outras pessoas fizessem o processo seletivo no lugar deles,
em novembro do ano passado.
"Ficou provado que não foram eles que fizeram as provas. Eles
contrataram pessoas para fazerem a prova e depois se matricularam",
afirmou Luís Mauro Sampaio, delegado responsável pelas investigações.
Sampaio, porém, explicou que é difícil chegar aos dublês de candidatos.
"São quadrilhas organizadas que agem em todo o país e são investigadas
pela Polícia Federal", disse.
Além do relatório entregue nesta quinta-feira (2) para a direção do
Centro Universitário, o delegado diz que vai entregar na segunda-feira
(6) as conclusões das investigações para o Ministério Público, com
pedido de abertura de processo penal contra os estudantes. Eles foram
autuados por falsidade ideológica, falsidade documental e estelionato.
As penas máximas para esses crimes chegam a 14 anos de prisão. Os
estudantes não têm antecedentes criminais.
O advogado Cássio Araújo, contratado pelos estudantes, afirmou que
"eles negam as provas produzidas no inquérito policial". Araújo também
disse que, embora não tenha tido tempo de se aprofundar no caso, ele
pretende "contradizer na Justiça as provas produzidas no inquérito
policial". O advogado ainda informou que não sabe se vai recorrer da
decisão do Unipam de desligá-los do curso. "Isso depende dos meus
clientes. Ainda não conversamos sobre isso".
Quem é Delfim Netto?
"Sequer cogitamos uma expulsão, após receber o relatório da polícia.
Como eles não fizeram as provas de vestibular, não poderiam fazer a
matrícula. Simplesmente, cancelamos a matrícula deles. No segundo
semestre, temos quatro vagas de segunda chamada", disse o diretor de
graduação e coordenador do vestibular do Unipam, Henrique Miranda.
O professor explica que, logo após a matrícula, houve uma denúncia
anônima de fraude no vestibular. Assim, foram aplicadas redações para os
60 alunos que passaram no vestibular. Esses testes e as redações do
processo seletivo foram repassados para a polícia pela Unipam, como
pedido da investigação.
Após quatro meses de apuração, a polícia identificou os estudantes.
Eles foram ouvidos e tiveram comparadas as letras escritas nas redações
feitas em sala de aula com a tipografia da prova de redação do
vestibular, assim como as assinaturas na matrícula e nos exames
seletivos.
Segundo o delegado, os quatro não foram detidos porque são réus
primários. Sampaio explicou que, além dos exames grafotécnicos, foram
avaliados os conhecimentos desses estudantes. Nas investigações, foram
mostrados aos suspeitos trechos da prova de redação do vestibular, para
que eles pudessem reconhecer as frases escritas. Na prova de Danilo
Barbosa Resende, por exemplo, havia a palavra "iconográfico", uma
referência ao "homo sapiens" e uma citação sobre o ex-ministro Delfim
Netto.
O delegado perguntou ao estudante se ele sabia o significado das
expressões e se conhecia o ex-ministro citado no texto. "Quem é Delfim
Netto?" O aluno não conhecia as expressões e nem sabia quem é Delfim
Netto.
"A Unipam prezou pela questão futura. Esses profissionais seriam
indivíduos que entraram sem nenhum mérito e se tornariam médicos. Como
seria o atendimento dessas pessoas aos doentes?", questiona o delegado.
O curso de medicina da Unipam oferece 60 vagas por ano. Em média, são
30 estudantes disputando uma vaga. A matrícula e mensalidades custam em
torno de R$ 4.000, dependendo do período que o aluno está cursando.